ERGONOMIA: UMA REFLEXÃO FRENTE ÀS MUDANÇAS NUM MUNDO GLOBALIZADO

RESUMO
O presente trabalho é uma tentativa de resgate da humanização nos ambientes de trabalho. Esperamos com isto, contribuir para um mundo mais saudável e humanizado, para que sejam valorizarizadas as competências individuais num mundo globalizado, onde todo trabalhador tem um papel importante a desempenhar, com talentos peculiares e com idéias inovadoras, onde ele é o protagonista de uma história que seria inexistente sem ele. Os grandes executivos e empresários são os responsáveis pela geração de emprego e crescimento do país, no entanto, o homem trabalhador é aquele que desempenha as tarefas, produzindo e enriquecendo seu patrão. Portanto, é este homem que deve ser ouvido na hora de elaborar mudanças no ambiente de trabalho, assim como nos equipamentos, mobiliário e, consequentemente, o seu bem estar.

Palavras-chaves: ergonomia, trabalho, capitalismo, globalização, mudança no ambiente de trabalho, trabalhador

RESUMEN
Este trabajo es un intento de rescatar la humanización en los ambientes de trabajo. Esperamos con ello, contribuir a una más saludable y más humanizado mundo, que se valorizadas las capacidades individuales en un mundo globalizado, donde cada trabajador tiene un papel importante que desempeñar, con singular talento e ideas innovadoras, donde él es el protagonista de una historia que serían inexistentes sin ella. Los principales ejecutivos y empresarios son responsables de la generación de empleo y el crecimiento del país, sin embargo, el hombre es un trabajador que realiza las tareas, la producción y enriquecimiento de su jefe. Así es este hombre que debe ser oído en el tiempo para producir cambios en el entorno de trabajo, así como en equipo, mobiliario y, por su bienestar.

Palabras clave: ergonomía, trabajo, capitalismo, globalización, el cambio en el entorno de trabajo, los trabajadores
INTRODUÇÃO

No ano de 1915, durante a Segunda Guerra Mundial, foi fundada a Comissão de Saúde dos Trabalhadores nas Indústrias de Munição, formada basicamente por fisiologistas e psicólogos e, em 1928, totalmente reformulada transformou-se no Instituto de Pesquisa sobre Saúde no Trabalho. Essa transformação ampliou seu campo de trabalho, promovendo pesquisas sobre posturas no trabalho, carga manual, seleção, treinamento e, principalmente, preocupações quanto ao ambiente (COUTO, 1995)[1].

Com o advento da Segunda Guerra Mundial houve a necessidade de adaptação dos instrumentos bélicos para que os operadores diminuíssem a tensão provocada pelo trabalho, evitando, dessa forma, os riscos de acidentes.

No mês de julho de 1949, cientistas reúnem-se na Inglaterra para discutir e formalizar este novo ramo de aplicação interdisciplinar da ciência. Logo após, em fevereiro de 1950, é proposto o termo ERGONOMIA, cuja raiz provém do grego: ergo – trabalho e nomos – regras, leis naturais. Sua expansão através da industrialização deu-se a partir da década de 50 com a fundação da Ergonomic Research Society, na Inglaterra. Em 1961, acontece o Primeiro Congresso de Estocolmo, promovido pela Associação Internacional de Ergonomia (PRATES, s.d. apud LIDA, 1990).


1 CONCEITO

Ergonomia é o estudo da adaptação do trabalho ao homem. Possui ampla abrangência referindo-se às máquinas, equipamentos e todas as situações que envolvem o relacionamento homem e trabalho. Neste contexto estão englobados aspectos físicos e organizações relativos ao programa e controle para a produção dos resultados desejados (PRATES, s.d. apud LIDA, 1990)[2].

Para que exista uma coerência entre organização, ambiente, homem, trabalho, produção deve existir uma preocupação em conhecer o homem (indivíduo que produz, gerando lucros) para projetar os maquinários e equipamentos ajustando-os às capacidades e limitações humanas. Para que o projeto funcione de acordo com o comportamento humano, são objetos de estudo:
Ø Homem – características físicas, psicológicas, sociais, idade, motivação;
Ø Máquina – todos os materiais que o homem utiliza em seu trabalho, tais como: equipamentos, ferramentas, mobiliários e instalações;
Ø Ambiente físico - efeito de luzes, ruídos, gases e outros tipos que causem poluição sonora, auditiva e aérea;
Ø Informação – relacionamento entre os elementos de um sistema, transmissão e processamento de informações, até tomada de decisões;
Ø Organização – a união dos elementos anteriores no sistema produtivo, englobando horários no sistema produtivo, turno de trabalho e formação de equipes;
Ø Conseqüências do trabalho – ligados ao controle: tarefas de inspeções, registro de erros e acidentes, estudos sobre gastos energéticos, fadiga e estresse.

1.1 HISTÓRIA DA ERGONOMIA E TRABALHO

Frederick Winslow Taylor, engenheiro americano nascido no subúrbio na Filadélfia, na Pensilvânia, em1856, era filho de uma classe média que pôde estudar em bons colégios.

Aos 22 anos de idade, Taylor conseguiu um emprego como operário nas oficinas de construção de máquinas Midvale Steel Company. De operário a chefe de oficina e engenheiro-chefe, de sua trajetória pode ser dito que foi conquistada em tempo recorde, no curto espaço de seis anos. Sua maior preocupação como chefe de seção era “como enfrentar problemas tais como: qual a melhor forma de fazer esse trabalho? Qual deverá ser o trabalho de um dia?

“Diante destes problemas, e devido ao eu caráter cumpridor de obrigações, Taylor queria que os homens sob sua direção realizassem durante um dia de trabalho uma produção aceitável, e impôs a si próprio o trabalho de encontrar o método para fazer um trabalho, ensinar o trabalhador a realizá-lo e fixar as condições em que o referido deveria desenvolver-se, fixar o tempo padrão para a realização do dito trabalho e, por fim, pagar ao trabalhador um prêmio em forma de salário extraordinário, se fizesse o serviço como especificado” (TAYLOR, 1987).[3]

O livro de Taylor, “Princípios de administração científica”, que adquiriu fama internacional influenciaram muito a organização do trabalho daquela época e, mesmo com as críticas afirmando que sua obra perdeu a atualidade e foi superada por outras teorias, se observarmos e e nos aprofundarmos nas formas de organização do trabalho de muitas empresas, veremos que lá estão alguns dos princípios dos fundamentos tayloristas. Conforme Figueiredo, 2008 (apud FLEURY e VARGAS, 1983)[4]:

“a crítica difundida entre os teóricos da administração empresarial, de que o taylorismo perdeu a atualidade, não tem fundamento. O que se abandonou em partes foram os métodos e técnicas que Taylor utilizava, mas não os seus princípios”.

Vargas (1979)[5], admite que na proposta deTaylor está implícita a mecanização do homem e só existe interesse na capacidade física do trabalhador, ou seja, o trabalhador se obriga a separar as “atividades do pensamento” do trabalho diário, pois seus movimentos devem ser o mais automatizados possível e sempre iguais. Ou seja, não existe a apropriação do saber operário e sim o controle do ritmo de trabalho e sua intensificação.

Após Taylor, outro homem importante que desenvolveu uma nova proposta de gestão da produção em linhas de montagem, foi Henry Ford, nascido em 1863, em Michigan. Vargas descreve abaixo os princípios do fordismo:
Ø Sempre que possível, o trabalhador não dará um passo supérfluo;
Ø Não permitir, em caso algum, que ele se canse inutilmente, como movimentos à direita ou à esquerda, sem proveito algum;
Ø Tanto os trabalhadores quanto as peças devem ser dispostas na ordem natural das operações, de modo que toda peça ou aparelho percorra o menor caminho possível durante a montagem;
Ø Empreguem-se planos inclinados ou aparelhos similares, de modo que o operário sempre possa colocar no mesmo lugar as peças em que trabalhou, e sempre ao seu alcance.
Vargas (1979)[6], concluiu que:

“o resultado prática destas normas é a aconomia das faculdades mentais e a redução ao mínimo dos movimentos de cada operário que, sendo possível, deve fazer sempre o mesmo movimento e executar a mesma operação.”

É importante citar que Ford compreendia o trabalho como fonte de riqueza, e por isso, não permitia qualquer desperdício. E, confirmando essa teoria, Henry ford sempre dizia: “Não há quase contato pessoal em nossas oficinas; os operários cumprem o seu trabalho e voltam logo para os seus lares. Uma fábrica não é um salão de conferências”. (Henry Ford).

Seria interessante fazer uma incursão no filme “Tempos modernos”, de Chaplin, de 1936, que faz uma boa alusão dos modernos meios industriais:
“é com o talento do humor de Charles Chaplin em sua obra Tempos Modernos (Modern Times, 1936) que a crítica ao modo de produção capitalista e à reprodução social burguesa que se deu de forma mais genial.
1.2 O CINEMA COMO INSTRUMENTO DE PROTESTO CONTRA O MUNDO CAPITALISTA – O EXEMPLO CHAPLIN[7]
Chaplin esforça-se em delinear não somente concepções que abrangem as questões trabalhistas em si, mas também uma perspectiva de humanidade em que a busca pela felicidade é uma constante. A frase do início do filme pontua a idéia central da obra: “Tempos Modernos. Uma história sobre a indústria, a iniciativa privada e a cruzada da humanidade em busca da felicidade.” (CHAPLIN, 1936).
O personagem de Chaplin representa o trabalhador da primeira metade do século XX em vários aspectos, contudo simultaneamente ressalta o desajuste à modernidade burguesa. Por um lado, o industrial worker se destaca da multidão como individualidade heróica que se identifica com o público-massa (construção característica de Hollywood), mas por outro, pontua uma tentativa frustrada de inserção na sociedade capitalista traduzida na busca pelo anonimato (configurando-se em um anti-herói problemático). (INÁCIO, s.d. apud ALVES, 2005)
A constante sensação de estranhamento com relação à sociedade é o elemento central da tragicomicidade da película. Tanto no ambiente de trabalho quanto em seu cotidiano sempre há um desajuste à realidade.
O ambiente fabril nos traz muitas informações sobre os elementos constitutivos do modo de produção capitalista e da sociedade norte-americana da época. A linha de montagem fordista com sua extrema especialização produz partes de mercadorias não-identificadas — Chaplin não nos deixa saber o que está sendo produzido. Somente sabemos que é uma fábrica de componentes elétricos (Electro Steel Corp.). O trabalhador perde a noção total de produto dada à divisão de tarefas. Desse modo, o trabalho ganha caráter abstrato.
Em uma cena mais adiante, Carlitos volta à fábrica só que agora na condição de assistente de manutenção das máquinas. Uma leitura possível é que o velho que acompanha Chaplin represente os antigos artesãos metalúrgicos. A cena em que o funcionário mais antigo fica preso nas engrenagens pode demonstrar que o novo capitalismo marcado pelo taylorismo-fordismo suplantara o sistema de produção artesanal.
Destaca-se também nesse ambiente a tentativa de controle total do funcionário por parte do capitalista. O capataz controla a linha de produção no que diz respeito ao seu andamento, enquanto o capitalista dita a velocidade da produção através de uma grande tela a la Big Brother como na obra literária 1984 de George Orwell (1949). A utilização de uma tela para o controle dos funcionários – o personagem de Chaplin é observado até dentro do banheiro!
A ligação com a máquina (fetiche do capital) é tão grande que o trabalhador industrial passa a ser parte dela. Tanto que Carlitos é engolido por ela e, após um dia estressante dia de trabalho é imbuído pela loucura.


2 QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO


As práticas ergonômicas hoje têm sofrido muitas mudanças, podemos destacar entre elas: tosas as adaptações feitas em equipamentos e mobiliários para atender a demanda dos trabalhadores, enquanto no passado adapta-se o homem ao trabalho, hoje esta prática está invertida e pode-se dizer que o trabalho está se adaptando ao homem.
Isso tem acontecido de forma gradual, tendo começado pelas fábricas e hoje, abrangendo setores que crescem de forma vertiginosa, como é o caso do trabalho de telemarketing. Esses profissionais passam horas em frente ao computador com telas piscantes (avisos, propagandas e alertas que devem ser dados ao receptor das mensagens dos profissionais da área).
É sabido que o mobiliário das principais empresas tem sido substituído por peças mais modernas além da concessão de dez minutos de descanso a cada uma hora de trabalho. Porém, é importante frisar que algumas medidas ainda devem ser tomadas para a melhoria das condições do trabalho desses profissionais, juntando-se a eles, professores, advogados, profissionais da voz em geral, para uma melhor adequação de sua produção vocal, evitando dessa maneira, idas constantes ao médico, além de afastamentos que muitas se prolongam por ocasião de patologias que podem vir a se tornarem crônicas, como é o caso das disfonias organofuncionais.



3 CONCLUSÃO

Mesmo com as mudanças impostas desde a Primeira Guerra Mundial até os dias de hoje, podemos considerar que ainda falta muita coisa a ser feita na área da ergonomia. Existe uma grande abundância de material bibliográfico na área, porém quase todos estão focados numa maior produtividade, enquanto o fator humano ainda permanece como fonte de produção apenas. Ou seja, os poucos que controlam o mundo operacional esperam o aumento da produção, recompensando aqueles que conseguem atingir metas e cortando aqueles que não o conseguem, ocasionando, dessa forma, uma competitividade predatória e não de cooperativismo. Podemos dizer, portanto, que as relações interpessoais no trabalho são constantemente ameaçadas pelo temor do desemprego, tirando assim, a harmonia – significante mais importante no lugar onde se passa a maior parte do tempo – em troca dos rolos compressores capitalistas.
Esperamos com este trabalho levar as pessoas envolvidas com os meios de produção, dentre eles, executivos, empresários, trabalhadores, pesquisadores e a comunidade em geral a uma reflexão acerca dos problemas mais relevantes quanto a uma nova profissão que surge na tentativa de melhorar todos os aspectos citados.


BIBLIOGRAFIA
FIGUEIREDO, Fabiana, MONT’ALVÃO, Claudia. Ginástica laboral e ergonomia. 2.ed. Rio de Janeiro : Sprint, 2008
PRATES, G. A. . Reflexão sobre o uso da ergonomia aliado à tecnologia : Propulsores do aumento da produtividade e da qualidade de vida no trabalho. RACRE. Revista de Administração CREUPI, v. 7, p. 76-85, 2007. ; Meio de divulgação: Vários; Homepage: http://www.unipinhal.edu.br/ojs/racre; Série: 11; ISSN/ISBN: 1519825. (material de apoio do próprio Instituto Amazônida)
http://www.wgate.com.br/conteudo/medicinaesaude/fisioterapia/alternativa/analise_ergonomica/analise_ergonomica.htm. (capturado em 03.08.2008, 14:02)
http://www.tempopresente.org/index.php?option=com_content&task=view&id=1395&Itemid=83 (capturado em 03.08.2008, às 17 horas)
1http://www.wgate.com.br/conteudo/medicinaesaude/fisioterapia/alternativa/analise_ergonomica/analise_ergonomica.htm. (capturado em 03.08.2008, 14:02)
[2]PRATES, G. A. . Reflexão sobre o uso da ergonomia aliado à tecnologia : Propulsores do aumento da produtividade e da qualidade de vida no trabalho. RACRE. Revista de Administração CREUPI, v. 7, p. 76-85, 2007. ; Meio de divulgação: Vários; Homepage: http://www.unipinhal.edu.br/ojs/racre; Série: 11; ISSN/ISBN: 1519825.
[3] FIGUEIREDO, Fabiana, MONT’ALVÃO, Claudia. Ginástica laboral e ergonomia. 2.ed. Rio de Janeiro : Sprint, 2008, p.23
[4]FIGUEIREDO, Fabiana, MONT’ALVÃO, Claudia. Ginástica laboral e ergonomia. 2.ed. Rio de Janeiro : Sprint, 2008, p.23
[5] Idem, p.26
[6] FIGUEIREDO, Fabiana, MONT’ALVÃO, Claudia. Ginástica laboral e ergonomia. 2.ed. Rio de Janeiro : Sprint, 2008, p., p.27
[7] http://www.tempopresente.org/index.php?option=com_content&task=view&id=1395&Itemid=83

FILOSOFIA VERSUS "O SEGREDO" DA HUMANIDADE - Ivo José Triches

A CONTRAPOSIÇÃO DA ABORDAGEM FILOSÓFICA ÀS IDÉIAS DO LIVRO O SEGREDO, QUE SUGERE UMA VERDADE SOBRE COMO O HOMEM DEVE AGIR

“Não se deve dar ouvidos àqueles que aconselham ao homem, por ser mortal, que se limite a pensar coisas humanas e mortais; ao contrário, porém, à medida do possível, precisamos nos comportar como imortais e tudo fazer para viver segundo a parte mais nobre que há em nós.” (ARISTÓTELES)

Inicialmente, poderíamos nos questionar: o que é a Metafísica? Qual a relação que há entre o que escreveu Rhonda Byrne em seu livro O segredo e a Metafísica, como uma forma de pensar própria da Filosofia?

Do ponto de vista etimológico, esse conceito não oferece grande dificuldade de compreensão. Com os conceitos Metà là Phiysiká, Andrônico de Rhodes
[1] quis referir-se aos livros de Aristóteles, que vêm depois da Física.

Desse modo, podemos dizer que a Metafísica é o estudo daquilo que vai além da Física. Aristóteles a chamou de Filosofia Primeira, porque como nos diz Abbagnano, no seu Dicionário de Filosofia, ela é “a ciência primeira, isto é, a ciência que tem como objeto próprio o objeto comum de todas as outras e como princípio próprio um princípio que condiciona a validade de todos os outros”.

Essa tese se sustenta na seguinte proposição: a Metafísica tem por finalidade o estudo das causas primeiras e a busca de uma verdade universal – no sentido de saber se é possível existirem coisas que foram, são e serão assim: e, ainda, que não podem ser de outro modo. Por exemplo: o princípio da não contradição de Aristóteles
[2] não de ser uma forma de pensar própria da Filosofia.

E por quê? Porque, ao longo da tradição filosófica ocidental, várias foram as contribuições acerca deste tema – a verdade -, com afirmações bem diferentes uma das outras. Isso ocorreu à medida que um filósofo ia sucedendo o outro.

Na Filosofia, as coisas funcionam mais ou menos assim: o filósofo que surge acrescenta algo ao que já existe. É por isso que novas verdades vão surgindo, suplantando muitas que pareciam intocáveis.

Assim, podemos dizer que, observando as diferentes definições de Metafísica e as finalidades a que ela deveria se ocupar, nós não encontraremos, nos discursos dos mais diferentes filósofos que refletiram sobre ela, uma postura que remeta à expressão: Pense isso. Porque a Filosofia é, antes de tudo, um Pense nisso e não um pense isso.

A Filosofia é um conhecimento aberto. Assim, podemos dizer que ela é movimento. É a procura amorosa da verdade, nunca a sua posse definitiva. Por isso, ela nasceu já acompanhada da humildade. Conta-se que as pessoas se dirigiam a Pitágoras dizendo: “Você é um sábio! Você realmente sabe muito!” E ele teria dito: “Eu não sou um sábio, sou apenas um filósofo!” em outras palavras, ele não se julgava o portador da verdade, mas, ao contrário, dizia que estava sempre buscando chegar mais próximo dela. Sobre isso também aprendemos com Sócrates, que, parafraseando Pitágoras, teria dito: “Sei que nada sei”. Frase esta que sempre é lembrada por muitos de nós. Por isso, dizemos que foi Pitágoras quem pela primeira vez, teria utilizado esse conceito na Filosofia.

Ao ler O segredo, descobrimos um livro pautado numa tese fundamental, qual seja, na idéia do Pense isso e não no Pense nisso. Caracterizando-se, portanto, como sendo um conteúdo altamente ideológico, no sentido marxiano
[3] e gramsciano[4] do conceito.


LEI DA ATRAÇÃO

Para esses autores, a Ideologia se constitui num corpo de idéias muito bem arquitetado e busca dar sustentação a uma determinada realidade. Por isso, eles diziam que, de modo geral, as idéias da classe dominada são as idéias da classe dominante. Porém, Antonio Gramsci, defendia a tese de que, com a ajuda dos intelectuais orgânicos, a classe dos debaixo poderiam elaborar uma contra-ideologia capaz de fazer frente à ideologia dos de cima.

Ao analisarmos mais à frente trechos de O segredo, evidenciamos que há, claramente, uma tentativa de universalização de um conjunto de idéias, em que os privilégios dos de cima permanecem intocáveis. Passemos agora a conhecer os aspectos gerais de sua obra.

Antes de fazer, propriamente, alusão àquilo que é objeto central desta reflexão – que é tentar desconstruir e mesmo desvendar o que há de subjacente em O segredo -, far-se-á, mesmo que de forma breve, uma descrição acerca do que trata a obra. O livro de Rhonda Byrne é posterior ao filme O segredo, que a autora resolveu produzir para revelar ao mundo aquilo que ela considera o grande segredo da humanidade: a lei da atração. Nas palavras da autora: “Tudo o que entra e sua vida é você que atrai, por meio das imagens que mantém em sua mente. É o que você está pensando. Você atrai para si o que estiver se passando em sua mente”.

De acordo com Byrne, ao longo da História, grandes homens e mulheres obtiveram sucesso e mudaram os rumos da humanidade e de suas vidas porque eram detentores desse conhecimento. Tamanho é o poder da lei da atração, que ela foi mantida em segredo, sendo descoberta por uns poucos privilegiados como Platão, Galileu, Beethoven, Einstein, entre outros.

Depois dessa descoberta (feita por acaso), a autora conta que decidiu buscar na contemporaneidade outros homens e mulheres conscientes do “segredo” e dispostos a partilhá-lo. Colheu depoimentos de “grandes mestres da atualidade” (de acordo com a autora), como Bob Proctor e outros palestrantes, filósofos empresários que acreditam que o grande segredo para a riqueza, a felicidade, a saúde, o sucesso, a longevidade é muito simples: a lei da atração – você atrai para si tudo aquilo em que se concentra.

De acordo com o livro, a lei da atração baseia-se na idéia de que nossos pensamentos emitem uma freqüência captada pelo universo. Atrairemos, dessa forma, aquilo em que nos concentramos, conscientes ou não de tal fato.

Recheando a sua exposição com depoimentos de contemporâneos que comungam da mesma tese, Byrne afirma, categoricamente, que qualquer pessoa pode conseguir qualquer coisa, ou seja, basta se concentrar e o universo responderá às vibrações de seu pensamento.

De acordo com a autora, não se trata apenas de pensamento positivo. A lei da atração é mais profunda que isso: seus pensamentos atrairão aquilo em que você se concentrar: então, se ficar preocupado com a obesidade, seu pensamento produzirá certa freqüência e você atrairá mais obesidade para sua vida.

Também não basta, segundo Byrne, pensar em coisas boas; é preciso visualizá-las, agir como se elas já estivessem ali e, assim, é possível conseguir tudo que se quer. Como se o universo atendesse às nossas solicitações. Uma idéia que, conforme afirma a autora, não é nenhuma novidade, já estava na Bíblia: “Pedi e recebereis”.

A credibilidade conquistada por Byrne se deve ao fato de embasar suas afirmações com explicações retiradas, na da astrologia, do esoterismo ou da religião, mas de ciências como a física, a Química – áreas de grande credibilidade em nossa sociedade. Ao explicar “cientificamente” a lei da atração, a autora conquista a confiança dos leitores.


O PRISMA IDEOLÓGICO

Voltemos à tese, qual seja, a proposição de que esse livrofoi construído no sentido de ser um Pense isso, daí seu caráter ideológico.

Partindo da falácia Ad verecundiam (apelo à autoridade) – já conhecida na História da Filosofia pelo que se convencionou chamar de Lógica não Formal -, a autora reproduz, logo no início do livro, um argumento tão difundido na cultura norte-americana: a idéia da riqueza fácil. Citando Bob Proctor, que diz: “Por que você acha que 1% da população ganha cerca de 96% de todo o dinheiro que circula? Você acha que isso acontece por acaso? Isso é planejado assim. Esse 1% entende algo. Eles entendem ‘o segredo’, e agora, você está sendo apresentado a ele”.

Qual a intencionalidade subjacente a tal afirmação? Por que logo depois de revelar “o segredo”, a autora procura enfatizar a idéia de que é possível obter riqueza facilmente, bastando conhecer tal segredo?

Ora, somos sabedores de que vivemos numa sociedade em que a riqueza súbita é desejada por muitos; em que o que vale não é nem tanto o novo, mas sim a novidade; onde o caráter pragmático da cultura norte-americana é difundido de todas as formas possíveis – e esse livro é mais uma evidência disso. Percebe-se, claramente, que uma das dimensões ideológicas dessa obra reside no fato de que basta eu acreditar e pensar que ficarei rico, e isso ocorrerá inexoravelmente.

Essa maneira é própria da cultura norte-americana, na qual a lógica do consumo é altamente difundida. Assim, esse tipo de discurso encontra terreno fértil para se reproduzir
[5].

O interessante é observar que o caráter histórico em que os atores sociais estão inseridos não é levado em consideração pela autora. Outro aspecto a ser destacado é que o que está oculto (daí seu caráter ideológico) é a idéia de que eu poderei ter tudo o que quiser mesmo que seja de forma solipsística (na filosofia, isso quer dizer que só existe o “eu”, os outros entes ou mesmo os demais seres humanos, são apenas coisas). Fica tudo muito relegado à subjetividade. Isso fica muito evidente na seguinte afirmação da autora: “Agora você está conhecendo ‘o segredo’, e com esse conhecimento poderá mudar tudo”. A tese marxiana de que podemos mudar a História, mas, se desejarmos mudá-la, a luta necessita ser coletiva, é aqui ignorada. Essa afirmação de Byrne evidencia, ao nosso entendimento, que há um dogmatismo obscurantista presente no seu livro. Tenta nos fazer acreditar, que sozinhos, podemos mudar o rumo da nossa vida e da humanidade. Ela escreve sobre o homem como se cada um fosse uma subjetividade isolada no cosmos e não se construísse a partir das relações com os demais atores sociais. A tese freirena, de que ninguém educa ninguém, que ninguém se educa sozinho, mas que nós nos educamos pela mediação pedagógica e ainda mediatizados pelas condições históricas em que estamos inseridos é, aqui, totalmente desprezada, ignorada.


CONTRADIÇÕES

Por outro lado, esse “segredo” – lei da atração – poderia ser também questionado da seguinte forma: como explicar, por exemplo, tragédias coletivas? Todos os envolvidos estavam vibrando na mesma freqüência trágica? E a sobrevivência de um suicida? A vibração de seu pensamento foi tão positiva no momento em que ele tentava tirar a própria vida a ponto de conseguir preservá-la?

Podemos, ainda, afirmar que é possível entender que esse “determinismo psíquico” presente em O segredo constitui-se numa hetero-ajuda, no sentido de que, para buscar melhorar meu endereço existencial, necessito buscar essas idéias que são exteriores a mim, sendo ela, Rhonda Byrne, a grande reveladora e porta-voz das mesmas.

O caráter significativo de escolher-se de Soren Kierkegaard (1813-1855) é aqui ignorado. Por isso, a autora de O segredo produz, com sua obra, a morte da Filosofia, à medida que o Pense isso é mais importante do que o Pense nisso.

O pensamento de Espinosa (1632-1677) também contrapõe o determinismo presente em O Segredo. Para o pensador, todos os elementos presente na Natura Naturada – materialização da Natura Naturante – são portadores de um conatus.

No Dicionário Latino-Português de Raulino Bussarello, conatum significa “esforço”, “tentativa”. Esforço ou tentativa do quê? Para Espinosa, o conatus consiste no esforço contínuo, na luta pela existência. Por isso, podemos dizer que o conatus é uma força intrínseca que nos chama para a vida. Ninguém deseja conscientemente morrer. Lutamos continuamente para nos manter vivos. “Isso vale tanto para nós humanos quanto para os demais seres existentes no universo”, diz ele.

Nos dias atuais, um mal existencial que vem sendo muito divulgado e mesmo estudado é a depressão. Podemos afirmar que alguém que se encontra nesse endereço existencial de sofrimento é alguém que está com seu conatus enfraquecido.

Para Byrne, a solução para a depressão passa pela lei da atração. Assim nos diz ela:

“Você possui dois conjuntos: os bons e os maus. E sabe a diferença entre os dois porque um faz você se sentir bem e outro faz você se sentir mal. É a depressão, a raiva, o ressentimento, a culpa. Esses sentimentos não fazem você se sentir fortalecido. São os maus sentimentos”. Mais adiante, reafirma: “A coisa mais importante que você deve saber é que é impossível sentir-se mal e, ao mesmo tempo, ter bons pensamentos. Isso desafia a lei, porque seus pensamentos produzem seus sentimentos. Se você está se sentindo mal, é porque está tendo pensamentos que estão fazendo você se sentir mal.

Muito embora a teoria das paixões da tristeza e das paixões da alegria de Espinosa possua certa semelhança com a teoria do livro em questão, quando analisada de modo mais profundo vemos que são coisas bem distintas. Para ele, as paixões da tristeza podem ser consideradas como paixões fracas. Isso porque elas, uma vez existindo em nós, enfraquecerão o nosso conatus. Ao passo que as paixões da alegria são consideradas paixões fortes, justamente por serem opostas às da tristeza. Como exemplos de paixões da tristeza, podemos citar a inveja, o ciúme, a mágoa, o ódio e o vício. Já no que tange as da alegria, temos a bondade, a amizade, a beleza, o perdão e a virtude entre outras. Mas afinal, o que isso tem de diferente da teoria de Byrne?

Para responder a essa questão, necessitamos compreender o conceito de Ética
[6] para Espinosa. Ele nos diz que nosso conatus não vive de forma solipsística. Não há como não estabelecermos relações com o conatus dos demais seres existentes na natureza. Todo encontro intersubjetivo acaba sendo um encontro de conatus.

Se na relação que estabeleço minha intenção é tentar ceifar o conatus do outro, então este outro virá de encontro ao meu conatus. Você deve estar se perguntando: e o que isso significa? Significa que ele tentará fazer de tudo para enfraquecer o meu conatus porque, em última instância, ele também deseja que o seu continue a existir.


O PAPEL DA ATITUDE

No entanto, se assim agirmos, a Ética estará longe, uma vez que, segundo Espinosa, ela consiste na luta constante para que ambos os conatus possam continuar existindo em uma determinada relação. Em outras palavras, se faço o bem, recebo o bem, não apenas porque meus pensamentos são bons, mas porque, à medida que o faço bem, você terá seu conatus fortalecido; consequentemente desejará também fortalecer o meu, razão pela qual teremos como resultado o fortalecimento recíproco dos conatus.

Um exemplo que certamente nos ajudará a entender melhor a questão acima é o contraponto que podemos fazer entre o educador brasileiro Paulo Freire e os traficantes de modo geral. Para os educadores que conheceram Paulo Freire pessoalmente, ou já leram algo sobre o pensamento dele, não haveria dificuldade de entrar em consenso acerca de suas intenções, qual seja, de que sua grande missão consistiu numa luta contínua para o fortalecimento do conatus da coletividade em geral. Por isso, ele está imortalizado na alma de tantos de nós. A maioria que conhece sua teoria percebe que ela nos fortalece no tocante à esperança de dias melhores para todos pela ajuda que a Educação pode nos facultar. Por isso, ele é amado por tantos atores sociais neste país.

No entanto, não podemos dizer o mesmo dos traficantes. Suas escolhas vão no sentido do enfraquecimento do conatus de todos aqueles que se envolvem na dependência química. Pó essa razão, eles são vistos como pertencentes ao “eixo do mal”. Sempre que podem – estando numa posição de segurança -, as pessoas de bem procuram denunciá-los tentando afastá-los uma vez que suas ações enfraquecem o nosso conatus.

NOTAS

[1] Pensador romano do século I a.C., a quem foi confiado que organizasse as obras deAristóteles quando as mesmas foram apropriadas por Silas no ano de 86 a.C. e levadas de Atenas para Roma.
[2] Dois homens não podem ocupar o mesmo lugar, no mesmo tempo e espaço.
[3] Por marxiano, nos referimos ao próprio pensamento de Karl Marx (1818-1883).
[4] Gramsci pode ser considerado um pensador marxista autêntico porque interpretou de modo original o pensamento marxiano. Suas maiores contribuições são do período que esteve preso (1926-1936). São famosos os chamados Cadernos do Cárcere, em que a Educação e a Política ocupam um papel de destaque.
[5] Como somos altamente influenciados pela cultura norte-americana e vivemos em tempos de globalização de quase tudo, isso acaba se reproduzindo por aqui com muita facilidade também. No meu entedimento, é uma verdadeira “praga daninha” porque não favorece a cultura do cooperativismo, da comensalidade.
[6] Uma de suas principais obras é justamente esta chamada Ética.

BIBLIOGRAFIA
TRICHES, Ivo José. Filosofia versus O segredo da humanidade. Filosofia: ciência e vida. São Paulo : Scala, 2008. a.2, no.8, p.50-7

O MITO DA CAVERNA

Hoje, um presente especial. Espero que este texto levem as pessoas que o lerem a alguns momentos de relflexão acerca da realidade e da ilusão, do medo e da coragem.
O Mito da Caverna
Extraído de "A República" de Platão . 6° ed. Ed. Atena, 1956, p. 287-291

SÓCRATES – Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e só vêem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto. Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos bonecos maravilhosos que lhes exibem.
GLAUCO - Imagino tudo isso.
SÓCRATES - Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos que se elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam em silêncio.
GLAUCO - Similar quadro e não menos singulares cativos!
SÓCRATES - Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver de si mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do fogo, na parede que lhes fica fronteira?
GLAUCO - Não, uma vez que são forçados a ter imóveis a cabeça durante toda a vida.
SÓCRATES - E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as sombras?
GLAUCO - Não.
SÓCRATES - Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das sombras que vêem, lhes dariam os nomes que elas representam?
GLAUCO - Sem dúvida.
SÓRATES - E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam, não julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos?
GLAUCO - Claro que sim.
SÓCRATES - Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das figuras que desfilaram.
GLAUCO - Necessariamente.
SÓCRATES - Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de discernir os objetos cuja sombra antes via.
Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam ante os olhos, o obrigasse a dizer o que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que antes via era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?
GLAUCO - Sem dúvida nenhuma.
SÓCRATES - Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora mostrados?
GLAUCO - Certamente.
SÓCRATES - Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado, para só o liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor ambiente, ser-lhe ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem reais?
GLAUCO - A princípio nada veria.
SÓCRATES - Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior. Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros seres refletidos nas águas; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas, contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.
GLAUCO - Não há dúvida.
SÓCRATES - Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol, primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio lugar, tal qual é.
GLAUCO - Fora de dúvida.
SÓCRATES - Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.
GLAUCO - É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões.
SÓCRATES - Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de escravidão e da idéia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?
GLAUCO - Evidentemente.
SÓCRATES - Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras ilusões e viver a vida que antes vivia?
GLAUCO - Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a viver da maneira antiga.
SÓCRATES - Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?
GLAUCO - Certamente.
SÓCRATES - Se, enquanto tivesse a vista confusa -- porque bastante tempo se passaria antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade -- tivesse ele de dar opinião sobre as sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior, cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?
GLAUCO - Por certo que o fariam.
SÓCRATES - Pois agora, meu caro GLAUCO, é só aplicar com toda a exatidão esta imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é verdadeiro. Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo inteligível está a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que, conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos negócios particulares e públicos.